segunda-feira, 6 de julho de 2015

OS FILMES DO MEU DESLUMBRAMENTO 3

1982 foi o ano de E.T. de Spielberg. Para mim, foi o ano de Blade Runner, de Ridley Scott, o filme culto da minha adolescência, o filme que mudou o modo como eu via cinema.
   Sempre fui cinéfila, via todo o género de filmes porque adorava aquela maneira de contar histórias; e até Blade Runner era assim que eu via cinema, uma mera narrativa visual. Depois de Blade Runner o cinema passou a ser uma experiência.
   A primeira coisa a ter em conta ao ver Blade Runner pela primeira vez é a beleza. Desde o primeiro até ao último plano, este é um filme visualmente deslumbrante. O que distingue o estilo de Ridley Scott é sobretudo o seu impecável bom gosto estético presente em todos os elementos, na fotografia, na cenografia, no guarda-roupa, na música, nos efeitos visuais e sonoros. Todos os elementos estão lá, reunidos numa combinação harmoniosa, não por acaso, mas por uma razão específica que é dar profundidade à história. Tornou-me consciente, pela primeira vez, de como o cinema era a expressão máxima da arte, reunindo todas as outras formas de arte numa única. Foi depois de Blade Runner que comecei a apreciar todos os aspectos da feitura de um filme e a compara-los com o que eu considerava ser a perfeição.


 
Depois havia o argumento, não inteiramente fiel à obra de Philip K. Dick, que serviu apenas como base de inspiração para a criação de um mundo nunca antes visto no cinema. Esta é uma história de replicants, criaturas, tal como Frankenstein, criadas em laboratório, não nascidas, que procuram um sentido para a sua existência, que confrontam o seu deus criador em busca de respostas só para descobrir que não há respostas. Deus está morto, ou o que é pior, nunca os amou, criou-os para seu divertimento; dotou-os de superior força e inteligência, ofereceu-lhes consciência e sentimentos emprestados só para melhor os controlar e usar como escravos descartáveis. Como é possível não simpatizar com a sua revolta de filhos abandonados por um pai indiferente? Neste filme, os replicants são trágicos Luciferes expulsos do convívio de Deus e os humanos são os vilões cruéis porque abdicaram da sua responsabilidade ética e moral de criadores. A personagem de Deckard, o polícia cuja missão é perseguir e eliminar os replicants rebeldes, é o verdadeiro andróide sem alma que (re)descobre a humanidade ao identificar-se com criaturas supostamente desumanas. Em que é que replicants e humanos diferem na sua busca de um significado maior para a sua existência?



Conceitos como cyberpunk, futuros distópicos, engenharia genética e mega corporações não eram propriamente novidade para os leitores de ficção científica dos anos 80 mas nunca tinham sido retratados tão realisticamente no ecrã como em Blade Runner. A ideia de um futuro retro/noir pessimista e decadente povoado de androides existencialistas pode não ter sido apelativa para a maioria dos espectadores da época, mas influenciou toda uma geração de realizadores actuais que reconheceram em Scott um génio visionário. Não há qualquer cenário sci-fi hoje em dia que dispense o tom, a atmosfera e o visual de Blade Runner. As suas imagens (néons, vapor e chuva) tornaram-se uma influência quase subliminar na arquictectura das cidades futuristas.


Tudo isto contribuiu para que eu me apaixonasse irremediavelmente por Blade Runner mas não explica totalmente o meu apego a este filme, visto e revisto vezes sem conta, sem nunca perder o seu fascínio. É algo que muita gente não entende, esta capacidade de revisitar uma obra familiar com o entusiasmo da primeira vez e continuar a encontrar nela novas coisas. É isto o que significa ter um filme culto, esta reação visceral, intuitiva, emocional, face a uma obra de arte, esta sensação de ter encontrado algo que exprime perfeitamente o que nos vai na alma, algo subjectivo, completamente misterioso e difícil de definir mas que faz todo o sentido tanto intelectual como emocionalmente. É algo que nos conforta e dá forças, uma espécie de fé, muito semelhante a um substituto religioso se quiserem; não é à toa que se usa o termo "culto".