quarta-feira, 17 de junho de 2015

OS FILMES DO MEU DESLUMBRAMENTO 2

Toda a gente tem, ou deveria ter, um filme culto; um filme que nalgum ponto da nossa vida nos marca de forma indelével e permanente. Existem, é claro, fenómenos culturais instantâneos que afectam a psique colectiva e são mais ou menos universais; depois, há bolsas isoladas de preferência que vão ganhando um impulso cada vez maior com o tempo até se tornarem autênticos ícones de inspiração.
   Os dois filmes culto da fase inicial da minha vida correspondem a cada um destes casos. O primeiro foi o Star Wars original de 1977, ainda era eu miúda. Fui arrastada pelo vendaval e embora na altura eu não tivesse capacidade para definir a razão do meu fascínio, agora sei que se deve à minha afinidade inata com os mitos. Porque, não se enganem, Star Wars é fantasia; apenas usa a ficção científica do mesmo modo que a fantasia tradicional usa os cenários medievais. E aí reside, na minha opinião, o génio de Lucas, que, na altura, mais ninguém soube reconhecer excepto a grande massa do público que transformou o filme no primeiro grande blockbuster. Lucas usou os arquétipos comuns a todos os grande mitos (o herói, a viagem iniciática, o mestre, a donzela em perigo, o conflito entre o bem e o mal, etc) e transportou-os para o espaço; e sob esta capa, os antigos mitos renascem como algo de novo mas familiar. São novamente admirados e apreciados, talvez não a um nível consciente, mas o inconsciente colectivo reconhece-os pelo o que realmente representam e recebe-os com o carinho e a saudade de um amigo há muito perdido.
 




  Mas o brilhantismo da ideia de Lucas não se esgota aí. O modo como combina os arquétipos com noções da própria história (o Império Romano é o exemplo mais flagrante) transpondo-a literalmente para outro espaço, mas situada num tempo mítico, indefinido, lendário; não é por acaso que o filme abre com a fórmula de todos os contos de fadas "Há muito tempo atrás..." remetendo imediatamente o espectador para o mesmo plano mental da infância que lhe permitia acreditar no impossível. A suspensão da descrença é imediata e total. Acreditamos naquele mundo, não porque ele seja completamente credível, mas porque nos recorda um tempo em que era fácil e normal acreditar em monstros e heróis lendários; e tendo ou não consciência disso, sentimos falta dessa capacidade para acolher o maravilhoso no seio da nossa vida mundana.



   É pena que George Lucas se tenha deixado seduzir pelo Lado Negro da Força e tenha vindo a banalizar e a infantilizar uma ideia que nada tinha de infantil ( haverá maior prova da sua traição do que ter vendido os direitos de Star Wars à Disney, arqui-inimiga do mito puro e duro e campeã do conto de fadas politicamente correcto?)
   Depois da trilogia inicial, especialmente depois d' O Império Contra-Ataca (na minha opinião o melhor filme de toda a série), o descalabro tem sido exponencial. Resta a esperança de que, mesmo com produção Disney, o novo Star Wars: The Force Awakens, a estrear no fim do ano, venha colmatar as maiores falhas dos filmes anteriores, nomeadamente a nível de argumento. O realizador é J J Abrams, o mesmo que ressuscitou Star Trek das ruas de amargura com bons resultados. May the Force be with him.  


   

3 comentários:

  1. Caro, permita-me corrigir uma coisa nesse seu ótimo texto (desse ótimo blog rs). SW é sci-fi e não fantasia. Calma, que tudo tem seu argumento rs... não se trata de achismo ou de querer ou não que seja sci-fi. Ela "é" sci-fi. Isso pq é um space opera, um subgênero sci-fi que é soft (e não hard) e que aceita elementos de fantasia. É o mesmo subgênero de clássicos históricos sci-fi como Duna e Fundação. Dizer que SW portanto é fantasia é relegar 2 pilares básicos do sci-fi (Duna e Fundação, além de Buck Rogers, Flash Gordon, etc), reenquadrando-os como fantasia. Se quiser ler mais a respeito, recomendo muito esse artigo aqui: http://maxiverso.com.br/blog/2016/01/26/star-wars-e-ficcao-cientifica-sim/

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    1. Concordo, é sci-fi, space opera, mas a inspiração e a temática é puramente mitológica (algo que o próprio George Lucas reconhece) o que não é tão aparente em Dune ou mesmo em Flash Gordon. Não quero com isto iniciar ou prolongar uma discussão sobre definições dentro da sci-fi, é apenas a minha opinião. Agradeço o comentário, contudo, e a sugestão do artigo.

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  2. Tb não pretendo me alongar no assunto, é que no texto vc afirma que SW é fantasia, mas na resposta concordou que é sci-fi. Claro que, como disse, em Duna ou Flash Gordon a temática não é tão mitológica, mas se é space opera então é sci-fi (não podemos confundir gênero e enredo... qualquer gênero, como comédia ou sci-fi, pode ter enredo mitológico). Abs.

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