quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Miss Rosie Imaginarium 2

Esqueçam as fadas enjoativamente doces, angelicais e assexuadas da era vitoriana e que os filmes da Disney popularizaram. A moralidade cristã alterou ou simplesmente eliminou do folclore europeu  todo o material que considerava impróprio e capaz de ferir as sensibilidades da época (o politicamente correcto já então era a norma). As fadas foram despidas da sua essência selvagem e incontrolável. Eram criaturas inócuas, sem identidade, meros instrumentos ao serviço dos desejos humanos, devidamente sanadas e relegadas para o domínio dos contos infantis.
   

Brian Froud é um dos artistas que ajudou a recuperar a visão multifacetada do universo das fairies. Devolvidas à sua dimensão de criaturas livres, irreverentes, sensuais e maliciosas, elas habitam num mundo paralelo, amoral, pagão, como encarnações da flora e dos elementos. São ambíguas por natureza, imbuídas de um espírito brincalhão que se delicia com a pratica de travessuras mais ou menos inofensivas; elas não fazem distinção entre o certo e o errado, não aceitam as normas humanas e só respeitam as regras que elas mesmas fazem.
    O livro Fairies foi feito em colaboração com Alan Lee. São dois estilos que se complementam. Froud empresta um toque de irreverência e sensualidade ao traço mais solene e lírico de Lee.
Belamente ilustrado e indispensável para quem quiser conhecer as raízes do folclore celta e anglo-saxão. Sem adoçantes naturais ou artificiais.                                                                                                                          
                                                                                                                                                                                          


  

   


     

Brian Froud também colaborou com Jim Henson como artista conceptual em dois filmes: The Dark Crystal (1985) e Labyrinth (1986). O desenho dos cenários e das criaturas fantásticas é crucial para o sucesso dos mundos criados, principalmente em The Dark Crystal, com as igualmente fantásticas marionetas/fantoches de Henson a dar vida ás personagens imaginadas por Froud numa história de luta entre o bem e o mal. Labyrinth, apesar de um tom aparentemente mais infantil, não é paternalista; apresenta-se como a história de uma jovem (ainda muito jovem Jennifer Connelly) prestes a entrar na idade adulta. É um conto de iniciação, sob a forma de uma demanda através de um labirinto recheado de armadilhas e tentações e que termina em redenção, como nas lendas tradicionais. O vilão é representado por David Bowie, o Rei dos Goblins, encarnação da ambiguidade moral tão atraente para todas as adolescentes. Os goblins não são aqui criaturas maléficas, mas antes agentes do caos, representações da desenfreada agitação hormonal a decorrer no interior dos meandros labirínticos da mente em transformação.
     Dois pequenos tesouros do melhor cinema de fantasia produzido nos anos 80.

 
 



                                                                          

Sem comentários:

Enviar um comentário