sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tumor

Eu era uma interrogação numa órbita descontrolada em torno de um ponto imutável de negação e dogmas obscuros. Mergulhada num charco de lágrimas miseráveis, chafurdava no pestilento lodo de angústias e podridão, arrastando os andrajos sórdidos da minha alma embrutecida através de névoas de dor e anos bafientos que se esfumavam em cinzas amargas. Movia-me e contudo estava fixa, como o buraco negro no centro da galáxia, força sugadora a orquestrar a dança solitária da perdição eterna.
     Ó serafins extáticos na agonia divina! Ó anjos da criação maldita que traz a vida já abortada no seu seio! Que sou eu senão a justa ira de um destino fracassado à nascença, contaminada por uma supernova calcificada aninhada no interior leitoso e intocado da orbe imaculada. Ai aguarda, ondulando ao som da dissonância dos elementos desordenados, profanando a alvura vivificante com o toque lascivo dos seus tentáculos de espinhos retorcidos. Verme enroscado e inchado de obscuro prazer enquanto acumula rancores latentes como tesouros, criatura de malévolo desígnio a corroer o núcleo de esperança.
     Eu sou crisálida aberta, despida, despojada do conforto do corpo familiar transmutado em pálido e informe saco de carne e orgãos doridos. Eis que chega, o ofuscante arcanjo cego, distribuindo fogo liquefeito em chamas purificadoras. Onde estás, meu centro, meu eu desconhecido? Onde se escondia a tua força invisível, abafada por cânticos profanos de procrastinação, entontecida pelos vapores hipnóticos de sonhos alucinados? Amaldiçoada, renascida por venenos cauterizantes para a falsa crença de propósitos cristalinos ainda por alcançar.
     Parcas. Nornes. De longos dedos secos e desgastados pelo infindável fiar e entretecer de mortalhas de olvido. Sem parar, para sempre, para sempre, tecedeiras de monólitos até ao dia sem tempo do colapso universal.  Ibis, o que pesa almas imponderáveis em balanças de julgamento e anota no livro dos mortos o peso de cada vida. Barqueiro silencioso, avaro e parco em favores, na sua interminável viagem pelas curvas coleantes de Ouroboros, o dragão sonolento que devora a própria cauda com a sorumbática paciência da eternidade. Ceifeiro sombrio e sedutor, acenando hipnóticas promessas vazias na confluência do Aqueronte com o Letes. Como ansiei por vós, como vos acolhi no meu seio com o aconchego intimo de um amante imaginário. Dualidade antagónica e complementar, paradoxo contraditório e repositório de ambiguidades. Essa sou eu. O Xiva transfigurador do meu princípio e do meu fim.
     Quantas vezes já pisei este espaço, este exacto ponto? Quantas idades ficaram impressas na pedra que testemunhou a minha passagem? Porque não as sinto na pele? O arrepio dos espectros das minhas anteriores identidades é tão irreal como memórias imaginadas. Prisão de pensamentos ulcerados dissolvida numa chuva de palavras ácidas, breve e coruscante verdade oculta em dissolutos demónios cacarejantes de escárnio. Milhares de gerações de mortos enterrados em sedimentos finos sob os meus pés, camadas de ossos desfeitos, triturados pelas mandíbulas do tempo em cinza fertilizante de incontáveis colheitas. Carne reciclada na terra de onde brotam as searas moídas em farinha amassada em pão. Pão de mortos a alimentar uma descendência de canibais. Lá estarei, partícula de luz, suspiro sem significado, pó de estrelas mortas a rodopiar em espirais cintilantes. A absoluta, magnífica e insuportável beleza do cosmos que ninguém jamais presenciará na sua gloriosa totalidade.
     Ó meu conforto e alegria.
     Mundos nascem com um grito e morrem com um suspiro. Mensageiros do caos, arautos da destruição, sopram as suas trompetas mudas de notas graves e reverberantes cujas ondas de choque estilhaçam planetas. O titânico espanejar das suas asas arrasta cometas, lançando-os em longas trajectórias que terminam em colisões de explosiva criação. E o bafo gentil e delicado do pastor de estrelas sacode dez mil sóis, dispersando-os em orfandade pela negra vastidão, como jóias atiradas a um lago de águas calmas. O serafim aninhado no coração da estrela sopra o seu ardente bafo de serpente e o querubim guardião dos céus trava a mortal labareda com o escudo protector das suas asas estendidas, um duelo atmosférico que se anuncia em cortinas iridescentes a bailar ao som da canção inaudível.
     Ó maravilha!
     E contudo, ele continua ali, o vagabundo escuro, o obliterador de matéria que tudo consome numa orgia indiscriminada de insaciável apetite. Extirpado e condensado num denso punho petrificado, fornalha de lancinante sofrimento, náusea paralisante, desejo que estremece e dilacera e intensifica os sentidos. Fúrias aniquiladoras materializam-se no coração da tempestade sanguinolenta e os medos herdados dos mamíferos primevos são retalhados em sombras transparentes pela sua vontade imperativa. E já não há mais dor, escorraçada pelo coriolis enfurecido; cede em espaços arquejantes de ar e estou livre, um infinito alado no dorso de um grão de areia.
     Vem a mim, doce, puro abandono à ubiquidade telúrica, à geometria abstracta residente no interior de um átomo, rodas sobre rodas sobre rodas a girar com inúmeros olhos de luz faiscante. Eis-me, no invólucro do útero universal, arrebatada pela visão do céu incandescente de glória, flutuando serenamente num oceano de unidade, intocada pelo turbilhão da alquimia celestial que agita o caldeirão da existência.
Incondicionalmente rendida, desfaço-me em cascatas intemporais de imponderabilidade, finalmente humana, finalmente completa.




   

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