sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tumor

Eu era uma interrogação numa órbita descontrolada em torno de um ponto imutável de negação e dogmas obscuros. Mergulhada num charco de lágrimas miseráveis, chafurdava no pestilento lodo de angústias e podridão, arrastando os andrajos sórdidos da minha alma embrutecida através de névoas de dor e anos bafientos que se esfumavam em cinzas amargas. Movia-me e contudo estava fixa, como o buraco negro no centro da galáxia, força sugadora a orquestrar a dança solitária da perdição eterna.
     Ó serafins extáticos na agonia divina! Ó anjos da criação maldita que traz a vida já abortada no seu seio! Que sou eu senão a justa ira de um destino fracassado à nascença, contaminada por uma supernova calcificada aninhada no interior leitoso e intocado da orbe imaculada. Ai aguarda, ondulando ao som da dissonância dos elementos desordenados, profanando a alvura vivificante com o toque lascivo dos seus tentáculos de espinhos retorcidos. Verme enroscado e inchado de obscuro prazer enquanto acumula rancores latentes como tesouros, criatura de malévolo desígnio a corroer o núcleo de esperança.
     Eu sou crisálida aberta, despida, despojada do conforto do corpo familiar transmutado em pálido e informe saco de carne e orgãos doridos. Eis que chega, o ofuscante arcanjo cego, distribuindo fogo liquefeito em chamas purificadoras. Onde estás, meu centro, meu eu desconhecido? Onde se escondia a tua força invisível, abafada por cânticos profanos de procrastinação, entontecida pelos vapores hipnóticos de sonhos alucinados? Amaldiçoada, renascida por venenos cauterizantes para a falsa crença de propósitos cristalinos ainda por alcançar.
     Parcas. Nornes. De longos dedos secos e desgastados pelo infindável fiar e entretecer de mortalhas de olvido. Sem parar, para sempre, para sempre, tecedeiras de monólitos até ao dia sem tempo do colapso universal.  Ibis, o que pesa almas imponderáveis em balanças de julgamento e anota no livro dos mortos o peso de cada vida. Barqueiro silencioso, avaro e parco em favores, na sua interminável viagem pelas curvas coleantes de Ouroboros, o dragão sonolento que devora a própria cauda com a sorumbática paciência da eternidade. Ceifeiro sombrio e sedutor, acenando hipnóticas promessas vazias na confluência do Aqueronte com o Letes. Como ansiei por vós, como vos acolhi no meu seio com o aconchego intimo de um amante imaginário. Dualidade antagónica e complementar, paradoxo contraditório e repositório de ambiguidades. Essa sou eu. O Xiva transfigurador do meu princípio e do meu fim.
     Quantas vezes já pisei este espaço, este exacto ponto? Quantas idades ficaram impressas na pedra que testemunhou a minha passagem? Porque não as sinto na pele? O arrepio dos espectros das minhas anteriores identidades é tão irreal como memórias imaginadas. Prisão de pensamentos ulcerados dissolvida numa chuva de palavras ácidas, breve e coruscante verdade oculta em dissolutos demónios cacarejantes de escárnio. Milhares de gerações de mortos enterrados em sedimentos finos sob os meus pés, camadas de ossos desfeitos, triturados pelas mandíbulas do tempo em cinza fertilizante de incontáveis colheitas. Carne reciclada na terra de onde brotam as searas moídas em farinha amassada em pão. Pão de mortos a alimentar uma descendência de canibais. Lá estarei, partícula de luz, suspiro sem significado, pó de estrelas mortas a rodopiar em espirais cintilantes. A absoluta, magnífica e insuportável beleza do cosmos que ninguém jamais presenciará na sua gloriosa totalidade.
     Ó meu conforto e alegria.
     Mundos nascem com um grito e morrem com um suspiro. Mensageiros do caos, arautos da destruição, sopram as suas trompetas mudas de notas graves e reverberantes cujas ondas de choque estilhaçam planetas. O titânico espanejar das suas asas arrasta cometas, lançando-os em longas trajectórias que terminam em colisões de explosiva criação. E o bafo gentil e delicado do pastor de estrelas sacode dez mil sóis, dispersando-os em orfandade pela negra vastidão, como jóias atiradas a um lago de águas calmas. O serafim aninhado no coração da estrela sopra o seu ardente bafo de serpente e o querubim guardião dos céus trava a mortal labareda com o escudo protector das suas asas estendidas, um duelo atmosférico que se anuncia em cortinas iridescentes a bailar ao som da canção inaudível.
     Ó maravilha!
     E contudo, ele continua ali, o vagabundo escuro, o obliterador de matéria que tudo consome numa orgia indiscriminada de insaciável apetite. Extirpado e condensado num denso punho petrificado, fornalha de lancinante sofrimento, náusea paralisante, desejo que estremece e dilacera e intensifica os sentidos. Fúrias aniquiladoras materializam-se no coração da tempestade sanguinolenta e os medos herdados dos mamíferos primevos são retalhados em sombras transparentes pela sua vontade imperativa. E já não há mais dor, escorraçada pelo coriolis enfurecido; cede em espaços arquejantes de ar e estou livre, um infinito alado no dorso de um grão de areia.
     Vem a mim, doce, puro abandono à ubiquidade telúrica, à geometria abstracta residente no interior de um átomo, rodas sobre rodas sobre rodas a girar com inúmeros olhos de luz faiscante. Eis-me, no invólucro do útero universal, arrebatada pela visão do céu incandescente de glória, flutuando serenamente num oceano de unidade, intocada pelo turbilhão da alquimia celestial que agita o caldeirão da existência.
Incondicionalmente rendida, desfaço-me em cascatas intemporais de imponderabilidade, finalmente humana, finalmente completa.




   

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Lovetta

Antes de ser Lovetta da dinastia Corvidius, eu chamava-me Chiara. Era esse o meu nome.
     Ao fim de trezentos anos ainda se lembro disso. Como também me lembro da primeira vez que vi o vampyr. Tudo o resto, os pormenores da minha vida anterior a esse momento escoam-se da minha memória como areia de uma ampulheta partida. Chega a ser irónico que uma raça aparentemente imortal e eternamente jovem não consiga reter memórias do passado. O tempo deixa de ter significado quando se vive num presente perpétuo.
    A Chiara longínqua e quase esquecida que abdicou da sua humanidade tinha dezassete anos quando se deixou seduzir pelo vampyr. Foi atraída pela sua superioridade, deslumbrada por tudo o que ele parecia representar, o epítome da masculinidade. Além disso, era o homem mais belo que eu jamais tinha visto, mas nessa altura ainda não sabia que a sua beleza era mera ilusão; era apenas o glamor que os vampyr projectavam na mente das suas vítimas. Não que isso importasse; tê-lo-ia deixado morder-me mesmo que ele se apresentasse com o seu aspecto real. Estar nos seus braços era como ser abraçada por uma estátua de mármore de proporções harmoniosas, perfeita em tudo excepto pelo facto de não estar viva. O facto de não haver calor no seu corpo não me incomodava; o êxtase provocado pela sua mordedura obliterava todo o desconforto e toda a estranheza. Ele chamava-se, muito apropriadamente, Valentine, e eu ia alegremente até ele mesmo quando ele não me chamava, para lhe oferecer o pescoço sem resistir, numa oferta consentida e voluntária do meu sangue. Achava-me muito aventureira e destemida nessa época.
     - Não tens medo de mim – constatou ele, uma noite, como que surpreendido.
     - Deveria ter? És tudo o que desejo ser – respondi eu, selando o meu destino.
     - Então junta-te a mim. O nosso amor não terá fim. Para sempre unidos.
    Fugi de casa. Abandonei família e humanidade, sem remorsos, e segui-o. Valentine estava determinado a fazer de mim a sua companheira vampyr e eu estava igualmente decidida a submeter-me à Dádiva das Trevas que só os Nosferatu de Gondwana podiam oferecer. Sentia-me fascinada pelos vampyr. Pareciam-me esplêndidos, uma raça de criaturas belas, poderosas e livres. Desejava possuir o mesmo poder, partilhar aquela independência de toda a autoridade. Oh, fazer o que me apetecesse, viajar por onde me aprouvesse, sem entraves, sem limites. Parecia um sonho tornado realidade. Um perfeito conto de fadas.
     Atravessamos o Velum que dividia os dois hemisférios de Thera a bordo de um dos veleiros modificados dos príncipes vampyr. A tripulação era composta exclusivamente por familiares, marinheiros humanos que serviam os vampyr na esperança de serem recompensados com a Dádiva das Trevas. Uma carga de humanos vivos servia de repositório de sangue mas não permiti que Valentine se alimentasse deles, não que sentisse piedade pelos escravos patéticos acorrentados no porão, mas porque queria ser apenas eu a ter esse privilégio. E apesar de ele se mostrar comedido no seu apetite, eu sentia-me cada vez mais fraca com a perda de sangue. Nas semanas seguintes, o meu reflexo diário mostrava uma jovem consideravelmente mais magra e anémica, com um rosto chupado, que ia perdendo a sua beleza e frescura.
     Durante o dia, Valentine repousava num ataúde cheio de terra no convés inferior que não possuía escotilhas. Sabendo que em breve esse prazer me seria negado devido à minha nova condição, eu não perdia a oportunidade de contemplar as tonalidades em constante mutação do oceano na sua infinita ondulação. Passei muitas horas a armazenar recordações de cores e sensações, da quente luz forte nas imensas velas brancas enfunadas, da espuma fresca que o vento atirava ao meu rosto, do azul intenso do céu que nunca mais veria...
     Mas era sob a abóbada estrelada, acariciados pela brisa marítima, que eu o interrogava muitas vezes sobre o processo que me transformaria num vampyr.
     - Será doloroso? O que acontece realmente?
     - O teu corpo morre para que possas renascer.
     - Teremos filhos?
    - Não. Estamos mortos. Um cadáver não gera vida. Só o sangue nos dá vida. Os nossos descendentes são-nos oferecidos pelos vupir. Foram os Nosferatu que fundaram as primeiras dinastias dos príncipes vampyr ás quais todos pertencemos. Serás uma Corvidius, tal como eu.
     - Mas quais são os critérios de escolha dos Nosferatu?
     - Não é permitido falar de estas coisas – respondia Valentine, evitando o assunto.
   E assim eu dirigia-me para o desconhecido, ignorante do que me esperava. Mas não estava assustada. Sentia-me impaciente pelo fim da jornada, quase excitada com a perspectiva da transformação que me uniria para sempre a Valentine. Acolheria de bom grado a morte que me libertaria da mortalidade.
   O navio aportou numa enseada deserta bem a sul do continente de Gondwana. Valentine e eu viajaríamos sozinhos de aí em diante. Ele transportou-me nos seus braços sem qualquer esforço, veloz e incansável. Chegamos a uma pequena clareira onde uma coluna de um material desconhecido marcava um ponto de encontro predefinido. Era ligeiramente mais alta que um homem, com a superfície escura coberta de símbolos, estranhos e incompreensíveis. Não se pareciam com nenhum alfabeto que eu conhecesse.
     - Quem a erigiu? - perguntei, curiosa. Os vupir não possuíam tecnologia, nem interesse por construções de espécie alguma que se soubesse.
     - Ninguém sabe. Já está aqui há muitos, muitos séculos. Há mais, espalhadas por todo o território.
    A incongruência daquele artefacto artificial naquele ambiente natural de vegetação luxuriante parecia ominoso.
     - Tem algum papel a desempenhar na Dádiva?
     Valentine sorriu enigmaticamente.
     - Verás.
    Senti-me subitamente apreensiva e vi-o pela primeira vez sem a sua capa de glamor. A elegância do seu corpo transformara-se em magreza extrema, a pele pálida e doentia repuxada sobre os ossos, os membros anormalmente longos, o rosto alterado e quase irreconhecível, uma máscara cadavérica imobilizada num ricto de dentes afiados, toda a beleza e perfeição e harmonia de formas e linhas distorcida e adulterada. A repugnância, porém, foi apenas momentânea; o meu amor por ele não esmoreceu. As aparências eram enganadoras e em breve eu seria como ele. O pensamento fortaleceu-me.
     Não obstante, quando um bater de asas coriáceo anunciou a chegada dos Nosferatu, os Pais Ancestrais de todos os vampyr, senti um medo irracional, primordial. Eles aterraram nos ramos mais altos das enormes árvores, um círculo de vultos ameaçadores acocorados contra o céu estrelado. Apesar de não os ver nitidamente não tinha qualquer dúvida de que todos os olhos estavam fixos em mim, analisando-me, avaliando-me com sentidos completamente alienígenos à natureza humana. Nunca tinha perguntado o que me aconteceria se fosse rejeitada. Seria trucidada ali mesmo? Implorar por misericórdia de nada adiantava e fugir não era uma opção. O que faria Valentine? Defender-me-ia ou juntar-se-ia ao festim de sangue?
     - Juntos para a eternidade – murmurou ele, numa promessa.
     Oh, como eu queria acreditar nisso. Seriamos eternamente jovens e apaixonados, eternamente invulneráveis e poderosos. O mundo seria o nosso recreio e as eras deslizariam por nós como uma suave e doce chuva.
     Um dos Nosferatu saltou para o solo com um impulso das suas poderosas asas. Aproximou-se de mim com movimentos rápidos, súbitos, quase como um réptil. Era alto mas caminhava meio agachado. Tinha um corpo pálido, de pele viscosa, sem pelo. Não conseguia perceber se era macho ou fêmea. Uma membrana ligava os seus membros superiores ao tronco, o que lhe permitia planar sobre as copas das árvores e que, quando aberta, era facilmente confundida com um par de asas semelhantes ás de um morcego. Porém, era o seu rosto que produzia o efeito mais desconcertante e inquietante. Tinha algumas semelhanças com um rosto humano, na medida em que possuía todas as características associadas a um mas corrompidas e defeituosas. A abóbada alta do seu crânio liso alongava-se e afunilava-se até terminar num queixo pontiagudo; as orelhas eram duas protuberâncias compridas e enroladas, como folhas; os olhos enormes e completamente escuros, sem esclerótica; o nariz achatado, de narinas largas, meros buracos triangulares; a boca grande, praticamente sem lábios, mera linha fina de onde sobressaíam dois compridos incisivos, como os de uma ratazana, ao contrário dos vampyr que tinham os caninos mais proeminentes.
    Todo o seu aspecto estranho e assustador era intimidante e a sua postura projectava uma ameaça imprevisível. De súbito, ele estava atrás de mim; as suas garras agarraram-me firmemente pela nuca e imobilizaram-me e o seu rosto aproximou-se do meu, a farejar.
     - Não deves demonstrar medo – avisou Valentine, mas o seu tom calmo não me tranquilizou.
    O Nosferatu virou ligeiramente a cabeça para o alto e se comunicou com os companheiros fê-lo sem usar sons audíveis para um humano, mas de repente os outros vupir saltaram em simultâneo e caíram sobre mim como um forte vendaval.
     Não houve qualquer cerimonial. As pessoas pensam que o silêncio que rodeia o ritual da Dádiva das Trevas se deve a algum mistério arcano, mas a realidade é que não existe qualquer segredo. Os Nosferatu atiraram-se a mim como a um pedaço de carne suculenta e drenaram-me. As suas presas enterraram-se dolorosamente na minha carne antes de eu ter tempo de reagir. O pânico tomou conta de mim mas já era demasiado tarde; não conseguia mover-me mas estava plenamente consciente do horror e da profanação a que o meu corpo estava a ser submetido. O contacto de bocas ávidas e frígidas sobre a minha pele, sugando o meu sangue com uma sofreguidão obscena, era uma violação. Valentine nunca me tinha mordido assim; era o oposto da mordidela íntima e erótica do meu amado e nada me preparara para aquele devassar da minha intimidade. Naquele momento odiei-o por não me ter avisado do que me esperava, por não me defender daquele ataque implacável, insensível, que me deixava completamente impotente.
     Os vupir afastaram-se finalmente, abandonando-me no limiar da morte, uma carcaça exangue caída por terra. Imersa numa letargia apática, apercebia-me apenas vagamente do que me rodeava. Ouvi a voz de Valentine junto ao meu ouvido, gentil e meiga e, oh, tão terna.
     - Bebe o sangue do Nosferatu, minha querida. Tens que beber ou morrerás realmente e ficarás perdida para mim. Aceita esta dádiva e torna-te uma de nós.
     Senti o líquido espesso que escorria pelo meu queixo e lambi-o debilmente com um desesperado instinto de sobrevivência. O vupir envolveu o meu corpo no casulo das suas membranas e tive uma visão do seu semblante horripilante debruçado sobre mim com a boca escura do meu sangue mas já nada me importava. Encostei os lábios à ferida que ele me oferecia no seu peito e um fio contínuo de líquido com um sabor a ferrugem escorreu pela minha garganta, incendiando as minhas veias. Um calor abrasador percorreu-me, como fogo líquido que consumia as entranhas e liquefazia os ossos numa agonia excruciante. O meu corpo foi sacudido por convulsões. Estava a morrer. Devia estar assustada mas encontrava-me num estado para além do medo ou do espanto e observava o que estava a acontecer-me, impessoalmente, como que do exterior.
     Valentine transportou-me nos braços e depositou-me numa cova escavada na base da coluna. Numa espécie de alucinação, vi que os símbolos que a decoravam brilhavam tenuamente no escuro e pareceu-me que lançavam gavinhas diáfanas na minha direcção; filamentos ainda mais finos nas suas extremidades serpentearam sobre a minha pele, penetrando subtilmente na carne para fazer conexão com os terminais nervosos. Valentine começou a enterrar-me e era perturbador sentir a terra cobrir-me gradualmente, sem poder fazer nada para a deter. O meu eu consciente e pensante encontrava-se aprisionado numa marionete sobre a qual não detinha qualquer controlo. Limitei-me a assistir, num horror paralisado, enquanto os torrões se amontoavam sobre mim, tapando-me a visão e impedindo-me de respirar. Antes de perder a consciência lembro-me de pontos luminosos a cintilar na terra escura, a pulsar e a dançar num padrão de graciosa geometria. Fechei os olhos, rendida, e depois abri-os, no que me pareceu um espaço de segundos; mas no intervalo entre as duas acções, soube-o depois, tinham decorrido dias.
     Um simples piscar de olhos. Sem consciência da transformação. Sem sonhos. Mas que despertar!
    Encontrava-me enterrada numa campa rasa e a nova força dos meus membros impulsionou-me facilmente através da terra. A clareira estava vazia. Sentada no chão examinei o meu corpo, curiosa, à procura de mudanças físicas. A minha pele apresentava-se lisa e sem qualquer marca das feridas e dentadas infligidas pelos Nosferatu. Coloquei uma mão no peito e não senti o bater do meu coração. Respirava, mas sabia que era um hábito que desapareceria com o tempo, pois já não precisava de oxigénio. Estava morta mas o corpo continuava operacional devido à circulação do fluído vital que regenerava as células, impedindo o envelhecimento, e irrigava o cérebro fazendo disparar as sinapses e criando a ilusão de vida. Olhei em volta, vendo tudo de um novo modo, o olhar de um recém-nascido. Todos os meus sentidos estavam excepcionalmente apurados. O senso de olfacto estava particularmente desenvolvido e fui assaltada pelos intensos odores exalados pela floresta. Ouvia os sons produzidos pelas criaturas que se remexiam no solo a metros de distância. Com a visão intensificada era capaz de identificar o calor produzido pelos seres vivos.
    Valentine saiu das sombras do pilar escuro e enigmático e estendeu-me cortesmente uma mão para me ajudar a levantar.
    - Lovetta Corvidius – saudou-me, atribuindo-me a minha nova identidade pela primeira vez, como era seu direito. Era esse o meu nome agora, símbolo da minha condição de vampyr.
     A fome dominou-me pela primeira vez. Uma ânsia exigente como nunca conhecera.
     - Tenho fome – anunciei.
     - Usa os teus sentidos – recomendou Valentine. - Verás que alimentar-te é um processo instintivo.
    Assim fiz. A floresta respirava com vida. Os mamíferos apresentavam-se aos meus novos sentidos como um conjunto de redes emaranhadas de veias e artérias a latejar sob a carne. Deixei que o instinto guiasse as minhas acções e maravilhei-me com a minha força e velocidade. O animal mais ágil e resistente não constituía desafio para as minhas recém descobertas capacidades. Eu era um predador poderoso, sem rival, e regozijei-me com a minha invulnerabilidade. Nessa primeira noite como vampyr experimentei a novidade de cravar as minhas presas na carne trémula e palpitante de inúmeros animais e aprendi a diferenciar os subtis sabores; mas nada parecia satisfazer a minha sede de sangue.
     - Só o sangue humano nos sacia realmente – explicou Valentine. - O sangue animal é apenas um recurso em caso de emergência.
   Usei a vitalidade adquirida com a ingestão de sangue para exercitar o meu corpo familiar e contudo desconhecido em corridas vertiginosas e saltos portentosos e testei os limites da sua força no derrube de árvores. Valentine acompanhou-me, incitando-me, aconselhando-me, um professor solícito que apreciava os rápidos progressos de uma aluna apta. Só muito, muito tempo depois é que percebi que fora essa a razão para a qual ele me escolhera para sua companheira; queria reviver a emoção da primeira vez e bebia do meu entusiasmo do mesmo modo que tinha bebido do meu sangue.
    Quando a alvorada chegou, procuramos refúgio numa cova funda e passamos o dia abraçados num leito de terra, mergulhados no sono sem sonhos, profundo e regenerador, dos vampyr.

Presa no navio durante as longas semanas de viagem tive que enfrentar a realidade da minha condição. Tinha que alimentar-me. Esvair animais era uma coisa, mas ainda tinha que acostumar-me a ver os seres humanos como fonte do meu sustento. Apesar de não sentir grande pena dos escravos presos no porão, sentia alguma relutância em sugar o seu sangue.
    - Os valores morais e a ética humana já não se aplicam a criaturas como nós – assegurou-me Valentine, rindo. - Nós fazemos as nossas próprias regras.
    Aceitei o facto de que tinha mudado irremediavelmente e nunca mais voltaria a ser humana, mas apesar disso, como que um tributo à minha humanidade perdida, só cedi à premência da fome quando a pressão se acumulou até ao limite do insustentável. As criaturas patéticas acumuladas no espaço confinado e escuro já se tinham resignado à sua sorte e ofereceram pouca resistência. Os últimos resquícios de escrúpulos morais desapareceram assim que cravei as presas num pescoço e senti o doce, delicioso, enebriante líquido a incendiar o meu corpo. Valentine tinha razão; nada se comparava ao sangue humano. Foi então, creio, que me tornei realmente vampyr.
     Ao aproximar-se da costa de Laurassia, o navio foi surpreendido por uma violenta tempestade. Valentine ensinou-me a voar então. Oh, a sensação de poder quando o corpo sem peso ascendeu e ficou a pairar no turbilhão de vento e chuva. Como as criaturas assustadas que se atarefavam no convés, lá em baixo, correndo de um lado para o outro a baixar velas e a puxar cabos, pareciam insignificantes. Eu e Valentine levitávamos acima do medo e do pânico, invulneráveis como deuses. E foi com o distanciamento dos imortais que observamos os marinheiros a gritar e a implorar a nossa ajuda enquanto o navio naufragava. O estalar dos mastros e o ranger da madeira sob pressão mal se ouviam no meio do rugir e uivar da borrasca. A forma mutilada da embarcação rolava à deriva na escuridão líquida, afundando-se e arrastando para as profundezas os corpos que se agitavam freneticamente na água agarrados aos seus destroços.
     À luz intermitente dos relâmpagos, distingui as ondas que se desfaziam em violentas cascatas de espuma contra os rochedos da costa. Juntos, flutuamos no vento na direcção da terra escura e senti inveja da falta de compaixão de Valentine que lhe permitia abandonar tantas vidas em perigo sem um pensamento de piedade ou pesar.
     Evitamos as povoações na nossa progressão nocturna para norte e durante o dia procurávamos refúgio em cavernas naturais ou em covas previamente e secretamente preparadas para essa eventualidade pelos familiares dos vampyr. Estávamos em território hostil e se fossemos capturados seriamos decapitados e queimados. Valentine não queria atrair atenções que levassem a eventuais perseguições pelo que era bastante discreto quando necessitávamos alimentar-nos. As nossas vítimas eram vagabundos ou viajantes solitários, cujos cadáveres depois escondíamos nos bosques que flanqueavam a estrada. Quando fossem encontrados, se alguma vez o fossem, já estaríamos longe. Um investigador cuidadoso e inteligente teria traçado a nossa rota num mapa seguindo unicamente o rasto de corpos drenados de sangue.
     À medida que as noites passavam e eu me habituava a saltar silenciosamente sobre uma presa humana, assim os meus escrúpulos em faze-lo se iam desvanecendo. Achava cada vez maior prazer em caçar nas sombras, pressentindo instintivamente a presença das vítimas pelo calor emanado dos seus corpos e pelo medo que fazia o seu sangue ser bombeado com mais força. Aquele momento final, em que as apanhava e dominava com a minha força sobre-humana e via o pânico invadir os seus olhos quando elas se apercebiam que iam morrer, tinha a qualidade de um potente afrodisíaco. A descarga de adrenalina que os seus organismos libertavam no momento em que cravava as minhas presas nos seus pescoços dava ao ao acto de sugar sangue um prazer especial, embriagador, viciante. Quando alcançamos o nosso destino, já eu estava a tornar-me numa caçadora proficiente.
     Valakia era uma região montanhosa, de altos picos perpetuamente cobertos de neve e encostas rochosas e escalavradas, de difícil acesso. As escassas povoações dispersas nos sopés das montanhas deviam fidelidade e obediência ás dinastias vampyr e nada tínhamos a temer deles. Davam-nos abrigo durante o dia e pagavam o tributo de sangue para nos alimentar.
     Flutuava ao lado de Valentine, com a densa copa da floresta a deslizar sob os meus pés e um céu cristalino do mais profundo violeta sobre a minha cabeça. O luar fazia refulgir a neve acumulada nas encostas acima da linha de árvores e formava um halo sobre os picos aguçados. Ainda não compreendia completamente os processos físicos que faziam o meu corpo levitar, nem estava muito interessada em analisar o fenómeno com profundidade. Aceitava todas as surpresas e novidades como parte da minha aprendizagem e limitava-me a apreciar as sensações proporcionadas pela mudança. A percepção do meu próprio poder libertara-me de todos os medos humanos. Restava-me o prazer; e foi no prazer de voar que me concentrei, ou melhor, de planar ao sabor das brisas que nos empurravam suavemente na direcção dos contrafortes das imponentes montanhas. Valentine possuía a acumulada perícia de séculos e senti-me inexperiente e desajeitada quando o vi exibir o seu domínio dos ares em piruetas graciosas e súbitas mudanças de direcção. Era difícil acompanha-lo mas ele guiava-me com o seu toque, meu leme e minha âncora, à medida que sobrevoávamos glaciares prístinos e desfiladeiros pedregosos.
     A primeira vez que vi Castelmur encavalitado num esporão da montanha, fiquei boquiaberta de espanto e admiração. Parecia uma visão evocada de algum conto de fadas, um palácio barroco e cintilante de neve a brotar da rocha negra, uma fantástica arquitectura aérea de lascas de gelo, decorada com pináculos finos como lâminas unidos entre si por arcos rendilhados de cristais de gelo, uma cacofonia de torres com cúpulas e telhados cónicos revestidos de coberturas açucaradas a brilhar palidamente ao luar. Se ainda respirasse, teria ficado sem fôlego perante tamanha beleza. Refugiados nas inexpugnáveis alturas e protegidos do sol pelas sombras das ravinas profundas e pelas noites longas da latitude árctica, os vampyr tinham escolhido a sua morada com verdadeira previdência.
     Quando pousamos num terraço imaculado de neve, fui conduzida por corredores brancos até aos aposentos que daquela noite em diante seriam meus. Largas janelas em arco deixavam entrar o vento que agitava as cortinas finas e esfarrapadas do dossel sobre o leito de gelo coberto de peles. Tais protecções deviam-se mais ao conforto que à necessidade pois os vampyr eram invulneráveis ao frio e a quaisquer outras condições meteorológicas. Aliás, todos os aposentos daquele palácio de gelo e ar eram usados apenas durante a noite, exclusivamente para fins recreativos; durante o dia, os vampyr procuravam refúgio na escuridão das cavernas escavadas no leito rochoso, no interior da montanha. Foi-me providenciado um novo guarda-roupa, muito mais luxuoso ao que eu estava acostumada. Depois de semanas de viagem, o meu vestido estava transformado num farrapo descolorido, impróprio para uma recepção formal na corte de um príncipe.
   Entrar no salão de audiências era como penetrar no interior de um cristal multifacetado iluminado pela radiância feérica das estrelas. O salão estava apinhado de vampyr de ambos os sexos, envergando modas antiquadas, com mais de um século, uma profusão de rendas nos pulsos e pescoços, casacos bordados a fio dourado e vestidos de saias armadas cheios de laços e fitas de cetim. Embora os materiais fossem ricos veludos e dispendiosas sedas dos mais profundos tons de carmim, azul, verde e dourado, pareciam um tudo nada puídos e usados, como se tivessem passado por muitas mãos, herdados ao longo dos séculos por sucessivas gerações de vampyr, como provavelmente tinha acontecido. Eram todos muito belos e usavam o glamor mesmo na companhia uns dos outros porque, sejamos francos, condizia melhor com as suas indumentárias de baile de épocas passadas.
     O príncipe Mephisto Corvidius, primeiro da dinastia, com mais de dois mil anos, estava sentado num trono elevado. A seu lado sentava-se a sua consorte, Cruciata. Atrás dos espaldares ornamentados estava pendurado um estandarte de tecido vermelho com a representação de um corvo, seu distintivo e marca pessoal, numa imitação dos brasões das casas reais humanas.
    A minha aceitação dependia do julgamento daqueles vampyr que me fitavam e examinavam intensamente. Procurei Valentine no meio da multidão de rostos andróginos e altivos e descobri-o à minha espera junto ao estrado. O seu sorriso encorajador fez-me avançar até ao trono. Ele tinha-me informado dos detalhes do protocolo e ajoelhei-me aos pés do príncipe em sinal de submissão enquanto Valentine anunciava formalmente a minha investidura pelos Nosferatu de Gondwana. Depois jurei fidelidade ao príncipe vampyr e ele aceitou-me como membro da dinastia Corvidius.

Isso aconteceu há trezentos anos. Desde então tenho levado a existência de um vampyr, ocultando-me da odiada luz solar, alimentando-me de sangue humano, uma vezes poupando as vítimas, outras vezes sugando-as até as deixar ressequidas, dependendo da necessidade. As suas vidas eram-me indiferentes e a empatia, esse precioso dom humano para a compaixão, passou a ser uma recordação distante sem qualquer significado. Familiarizei-me com a região de Valakia e as restantes dinastias vampyr, os Volakis, os Cervidius, os Aguirre e os Mercandier. Por vezes fazíamos alianças e partíamos para a guerra contra os clãs de lycantropos de Gothia, uma acção encarada pelos vampyr mais antigos como uma distração para afastar o tédio, mas que entusiasmava os jovens vampyr como eu. O nosso pequeno exército encontrava-se com o deles nas florestas escuras durante a lua cheia. As nossas forças estavam equiparadas e o desfecho era sempre incerto. Umas vezes saíamos vencedores, trazendo para Castelmur as peles dos lobos mortos para adornar os nossos leitos, outras vezes éramos derrotados e os lycantropos pregavam os corpos debilitados dos nossos companheiros capturados aos troncos das coníferas para que fossem incinerados pelo sol. Era uma disputa cruel, instintiva, sem razão, a marca da rivalidade hereditária entre predadores transmitida pelos nossos respectivos antepassados de Gondwana.
     Mas era sobretudo Valentine, o meu belo amante vampyr, que dava sentido aquela vivência despreocupada de ócio e diversão. Éramos jovens deuses a observar o mundo desde as alturas intransponíveis do nosso santuário. O tempo não nos tocava, era medido apenas pelos intervalos de luz e escuridão, num rolar infindável de horas destituídas do poder de influenciar os nossos corpos imutáveis. Nunca experimentaríamos o inevitável declínio comum a toda a humanidade, não envelheceríamos, não adoeceríamos; nem sequer sentíamos a dor da mesma maneira.
     Por vezes fazíamos excursões ás cidades. Já quase tinha esquecido a visão de aglomerados de casas e ruas populosas. Aos meus sentidos de vampyr, as pessoas afiguravam-se como novelos de fios escarlates em movimento que despertavam em mim impulsos básicos e incontroláveis. Sentia-me como um felino incapaz de resistir à provocação de uma bola brilhante agitada à sua frente. Mas em vez de ceder à tentação de saltar sobre a comida, deixei-me guiar pela experiência de Valentine.
     - Quando caças numa cidade, o essencial é passar despercebido – explicou ele. - Não encontrarás aqui a passividade amedrontada dos aldeões de Valakia. Aqui, um vampyr está em desvantagem numérica. A autopreservação exige que sejas cuidadosa e discreta. Se fores avistada serás perseguida e obliterada da existência até não restar de ti senão cinzas. Compreendes o risco? Não somos completamente invulneráveis fora dos nossos domínios.
     Assenti, pensando para mim mesma que o risco valia a pena só pela excitação que trazia. Começava a tomar consciência de que um vampyr era viciado não em uma, mas duas coisas: sangue e adrenalina; e a segunda era bem mais difícil de obter quando se possuía um corpo cujas funções de suporte de vida se encontravam permanentemente suspensas.
    - Observa-os atentamente – prosseguiu Valentine. - Procura os fracos, os desprotegidos, os solitários. Evita os de ar importante e abastado, cujo súbito desaparecimento provocaria logo investigações. Não basta não seres detectada, tens que disfarçar a tua própria existência neste local. O mais leve descuido da tua parte, qualquer suspeita da tua presença nas sombras, lançará o alarme e porá os caçadores de vampyr no nosso encalço. Deves ser invisível, de tal modo que a tua passagem não seja sequer registada pela percepção humana.
     Depressa pus em prática os seus ensinamentos, ansiosa por lhe mostrar a minha aplicação e habilidade naquele jogo. Quando penso nisso, digo a mim própria que foi uma decisão arbitrária que fez recair a minha escolha num ancião ainda vigoroso que caminhava sozinho por vielas pouco iluminadas, mas suspeito que uma parte de mim já devia saber a verdade quando iniciei a perseguição silenciosa, rente aos telhados dos edifícios, movendo-me de sombra em sombra como um pedaço de névoa. Apliquei nele um truque hipnótico, inerente aos vampyr, e plantei subtilmente na sua mente sugestões de trajectos que ele imaginava serem suas. Depois deixei-me cair sobre ele sem ruído e envolvi o seu corpo com os meus braços e pernas, para lhe tolher os movimentos. Ele debateu-se, mas eu já tinha cravado as minhas presas no seu pescoço e sorvi o sangue até o deixar sem forças para lutar. Deixei o corpo enfraquecido deslizar para o chão e debrucei-me sobre ele para terminar a refeição com mais calma.
     Nesse momento, o clarão do holofote de navegação no alto de uma torre acumuladora de energia iluminou brevemente o beco. Na passagem daquele fugaz raio de luz, vi claramente as marcas da idade no rosto do homem, o terror e a confusão familiares estampadas nas suas feições. E ele viu-me a mim, imobilizada pela luz reveladora no acto de morde-lo, com os longos caninos à mostra e a boca suja de sangue. Os seus olhos abriram-se, não de medo como eu esperava, mas de espanto genuíno. Tive a sensação inquietante, perturbadora, de que ele me tinha reconhecido.
     - Chi...Chia...ra...
    O sangue fluía da sua garganta em borbotões enquanto ele se esforçava por falar. Inclinei-me mais, o desejo de saber, de descobrir a identidade daquele homem mais premente do que a fome naquele instante.
     - Quem és? - perguntei, impacientemente.
     Ele respirava com dificuldade, fazendo um som aflitivo de sufocação.
     - Ir...mão...que...te...acon...ceu...desap...ceste...anos...
    A cada tentativa de formar uma palavra, uma golfada de sangue escorregava para o chão, desperdiçada, inútil. Agarrei-o pelos colarinhos, queria abana-lo e obriga-lo a negar a verdade, mas os seus olhos ficaram subitamente vítreos, retendo ainda a expressão de incompreensão e uma acusação incipiente. A sua cabeça pendeu frouxamente para trás. Já não detectava qualquer batimento cardíaco. Ele fora-se para sempre antes de responder ás minhas perguntas. Empurrei violentamente o cadáver para longe de mim, frustrada, furiosa com ele. Não podia ser verdade. O meu irmão era uma criança, não aquele corpo flácido, enrugado, velho. E eu só tinha passado algumas semanas em Castelmur, meses no máximo.
     Valentine desceu da escuridão e aterrou a meu lado.
     - Que fazes aqui parada? Mexe-te! Esconde o cadáver!
     Não me movi, sentada na poça de sangue do meu irmão.
     - Há quanto tempo estou contigo?
     - Que importa isso agora? Não escutaste nada do que te disse?
   Apontei o corpo imóvel, mole, caído numa posição que fazia lembrar um boneco de membros articulados atirado para um canto pela negligência infantil.
    - Era o meu irmão. Está velho. Que idade achas que teria? Setenta? Era um miúdo de oito anos quando te conheci.
     Valentine lançou-me um olhar estranho, desconfiado daquela emotividade incompreensível que associava ás vítimas indefesas. Eu sentia-me próxima da histeria com o choque da revelação mas singularmente intocada pelo horror do acto que acabara de cometer. Como era estranho pensar no rapazinho que ainda povoava a minha memória recente e que agora jazia ali, irreconhecível sob o peso de décadas. Como fora ele ali parar, precisamente naquela altura, no momento exacto em que todos os factores tinham convergido num ponto do espaço e do tempo, transmutando uma improbabilidade numa certeza?
     Uma vida inteira passara ali no mundo dos humanos onde o tempo ditava as suas leis eternas. Seria sempre assim? Permaneceria estagnada num presente perpétuo sem noção das mudanças que ocorriam à minha volta? Sem me preocupar com antigas ligações familiares? Em breve, todas as pessoas que eu tinha conhecido teriam morrido. Importar-me-ia isso realmente?
     Valentine fez-me sair daquele estado de alheamento; obrigou-me a reagir à necessidade de secretismo e à urgência da fuga. E durante o processo da remoção e ocultação do cadáver deixei de pensar naquele corpo como o corpo do meu irmão, o irmão de quem me tinha alimentado. O irmão que eu tinha matado.
    O egocentrismo, que é apanágio dos vampyr, não deixava espaço ao remorso ou à culpa e depressa descartei o incidente. Aquele reencontro com o passado, contudo, afigurava-se-me como um vaticínio de desgraça.
     E os séculos sucediam-se, num longo desfilar de acontecimentos rotineiros, numa uniformidade nebulosa que conduzia ao tédio e à apatia. Quando a novidade se esgota, a única constante é a fome. O sangue tornou-se uma obsessão, o objectivo máximo, a paixão voraz que consumia a minha existência. Valentine sabia disso, naturalmente, mas achou por bem manter-me na ignorância, deixando-me viver a ilusão do romance até à sua inevitável conclusão amarga. Ao fim de trezentos anos, eu já tinha perdido todo aquele entusiasmo juvenil que o atraíra e desenvolvera uma atitude de complacente indiferença, comum à maioria dos vampyr. Independentemente dos traços individuais das personalidades originais, ao fim de um certo tempo os vampyr ganhavam uma carapaça de cinismo impermeável ás noções mais básicas de ternura, compaixão e solidariedade.
     Mas a longevidade também pode ser uma doença, uma maldição. Alguns vampyr não suportavam bem a passagem dos séculos e, cansados da existência, suicidavam-se caminhando voluntariamente de encontro ao alvorecer nos picos solitários. Outros faziam uma regressão espontânea à condição de animal e eram expulsos do convívio da corte; semelhante atitude era intolerável para os restantes vampyr que, mesmo movidos pelos instintos mais bestiais, gostavam de se comportar com a elegante civilidade dos aristocratas. Os vampyr mais aptos à acumulação dos anos tornavam-se mais resistentes e temíveis, aperfeiçoando as suas técnicas de sobrevivência até atingir um patamar de perfeição que os tornava invencíveis e especialmente perigosos. Ocupavam o topo da hierarquia e faziam parte do círculo de eleitos que rodeava o príncipe Corvidius. Diferenciavam-se do resto dos vampyr pela sua arrogância desmedida, pelo seu desdém absoluto por todas as criaturas e pela sua insaciável sede de sangue fresco. Eram admirados, quase reverenciados, pelos restantes vampyr que aspiravam atingir o seu estatuto invejável.
     Vivíamos numa paródia de corte, decadente, estagnada, circular e eterna como a rotação da esfera estelar sobre as nossas cabeças. Era a certeza daquela repetição incessante, estéril e mecânica dos mesmos gestos que movia os vampyr a fazer frequentes excursões ás zonas habitadas para escolher companheiros entre os humanos, sempre a transbordar de sentimentos e emoções imprevisíveis, surpreendentes, interessantes. Escolhiam e raptavam os mais belos e traziam-nos para o palácio congelado, onde eles proporcionavam desporto e entretenimento durante algum tempo, antes de servirem de refeição. Disfarçávamos a monotonia da nossa natureza inalterável com plumas e lantejoulas, envergávamos roupagens extravagantes e usávamos máscaras de criaturas mitológicas, como pavões exóticos, coloridos, num cenário de frígida brancura. Não suportávamos ver aquele inescapável fastio reflectido em todos os rostos, partilhado por todos os olhares, mas continuávamos a encenar os mesmos papéis e a repetir os mesmos diálogos estafados até ao infinito. Era um código tácito, jamais mencionado ou posto em causa, não fosse estilhaçar a ilusão de perfeição, pensei, ao observar os meus companheiros vampyr a deambular num imenso salão completamente branco de neve, em mais um interminável e enfadonho baile de fantasia. 
   Cintilantes pingentes de gelo formavam fantásticos candelabros suspensos do tecto e cortinados de tal maneira cobertos por camadas acumuladas de poeira de gelo pendiam rígidos e solidificados, como esculturas, entre as janelas altas abertas para abismos de ar, por onde entravam flocos leves e fofos que rodopiavam pelo salão. Os archotes que tinham sido ali colocados para benefício do entretenimento daquela noite formavam poças de gelo derretido no pavimento. Não deviam estar a fazer grande efeito, a julgar pelos rostos azulados dos humanos que dançavam com os vampyr ao som das valsas de uma orquestra de músicos completamente alheados da realidade do local onde se encontravam.
     - A refeição terá que ser servida em breve, antes que o sangue congele – disse Lachrimosa, indolentemente reclinada no sofá, ao meu lado. - É tão difícil avaliar a temperatura certa para mante-los adequadamente quentes. Já decidiste quem vais provar primeiro?
     - Não sou grande apreciadora de comida congelada. Prefiro caçar. É degradante servir-me de criaturas tão patéticas, tão estupidificadas pelo glamor que não oferecem qualquer resistência.
    - Valentine sempre se sentiu atraído pelas criaturinhas intrépidas. Ainda me lembro de como chorei e lhe supliquei que me fizesse igual a ele, e ele recompensou-me com um nome a condizer – fez uma careta misto de vergonha e desprezo ao admitir aquela fraqueza humana e reparou na minha expressão. - Oh, não sabias? Fui a companheira dele antes de ti.
   A surpresa era tão incomum ao fim de tantos anos como vampyr que me permiti um longo momento a saboreá-la. Lachrimosa era a minha melhor amiga, se tal termo era apropriado para definir a nossa relação de cumplicidade natural. Discutivelmente, entre criaturas egoístas, competitivas e insensíveis, não existiam sentimentos de fraternidade.
    - Não, não sabia – respondi. E interrogava-me como nunca me tinha apercebido disso durante todo aquele tempo.
    - Oh, não te aflijas, não sinto ciúmes – disse ela, despreocupadamente. - Os vampyr, ao contrário dos animais monógamos como os lycantropos, gostam de variedade.
     - Valentine jurou-me solenemente que ficaríamos juntos para sempre.
     Lachrimosa soltou uma gargalhada de puro divertimento.
     - Uma vampyr apaixonada! Oh, é delicioso! É claro que prometeu, tal como me prometeu a mim e a inúmeras outras antes. Já todas pensamos que éramos as únicas, mas é apenas um sentimento transitório. É assim que recrutamos os humanos; oferecemos-lhes o que eles mais desejam. Mais te vale começares a aproveitar desde já a companhia de novos parceiros. Não tarda muito, Valentine estará à procura de nova companheira entre os humanos – acrescentou ela.
    Era talvez um indicativo da minha ingenuidade o facto de essa ideia nunca me ter ocorrido. Observei Valentine, a dançar com uma jovem transida de frio no seu vestido decotado. O glamor impedia-a de reparar no rápido e mortal arrefecimento que paralisava o seu corpo, ou no sorriso arrogante, calculista e predatório do belo vampyr. Movida por um acesso de ciúme possessivo, atravessei o salão tão veloz como uma rajada de vento e arranquei a jovem dos braços dele. Creio que ela nunca chegou a perceber o que lhe aconteceu. Dei-lhe uma morte rápida e deixei que o seu corpo frouxo tombasse no chão. Lambi o seu sangue dos lábios enquanto observava a reacção de Valentine.
     Ele fitava-me, ligeiramente aborrecido por eu o ter privado de uma refeição que prometia ser saborosa. Não havia qualquer vestígio do orgulho, da satisfação ou do prazer que as minhas acções costumavam suscitar nele outrora. Percebi então que iria perde-lo. Era só uma questão de tempo.
     Talvez ele tivesse realmente experimentado um forte desejo por mim, equivalente ao amor segundo as noções de um vampyr. Mas agora, como uma criança facilmente aborrecida pelos jogos habituais, passada a novidade, esgotado o interesse, ele iria dedicar-se a um novo brinquedo. O tão proclamado amor eterno entre vampyr era pura invenção poética. Tinham sido os vampyr a promover a ideia (oh, tão apelativa), de uma felicidade sem fim. Mas não há relação que resista ao fim de alguns séculos de convivência nocturna. Sem mudança, sem evolução, sem amadurecimento, o estado de perpétuo enamoramento torna-se insuportavelmente enjoativo, trivial nas suas manifestações, cansativo nos seus esforços para parecer apaixonado. Durante quanto tempo pode um morto simular e sustentar a aparência de vida e de amor quando a chama que os alimentava foi extinta para sempre?
     Valentine tinha-me sugado a vida, transformara-me numa prisioneira colaborante, mas nada disso era motivo de censura ou razão de ódio, era apenas ele a agir de acordo com a sua natureza. Não desejava retaliação por uma decisão tomada voluntariamente. Eu gostava de ser vampyr. Depois de três séculos, era difícil conceber outra existência. Ele fizera-me votos impossíveis de cumprir mas eu continuava teimosamente apegada ao ideal e desejava o que ele me prometera. Continuava a acreditar, com a vã esperança dos eternamente insatisfeitos, num sonho impossível. Suportava a prolongada agonia do afastamento gradual de Valentine, atormentada pela ideia de passar uma eternidade na sua companhia, invisível, ignorada, só. Sentia-me uma anomalia grotesca entre vampyr hedonistas e promíscuos, pois eu era-lhe fiel e esperava dele a mesma entrega e dedicação exclusiva. O meu desespero e a minha frustração produziram uma espécie de insanidade. Valentine não desconfiou quando o retive toda a noite nos meus aposentos, no alto de uma das torres glaciais de Castelmur.
     - Isto é felicidade – confessei-lhe, no auge da paixão. - Não desejavas prolongar este momento?
   Caídos em redor do leito de gelo encontravam-se os cadáveres da nossa última refeição e as paredes imaculadas estavam salpicadas do sangue que espirrara devido à ânsia voraz do nosso apetite, intensificado pela paixão.
     - Sabes que para nós as emoções não duram muito tempo – respondeu Valentine. - O amor é belo e precioso porque é efémero - e beijou-me como quem se despede. Frios os seus lábios, frias as suas mãos na minha pele fria. Não havia paixão capaz de reacender o calor dos nossos corpos, nenhum sentimento faria bater os nossos corações mortos, meros músculos inúteis e ressequidos.
     Ele dorme nos meus braços agora, com a cabeça apoiada no meu peito, esgotado pelo prazer, saciado com a orgia de sangue. Acaricio os longos cabelos do meu amante e penso mais uma vez na confluência de factores. Que afortunado e conveniente que as janelas do meu quarto estivessem viradas para leste. Em breve verei o espectáculo esplendoroso do sol nascente, que já não vejo há trezentos e sessenta e seis anos. Compreendera, por fim, que só a morte verdadeira era garantia de eternidade. Não era vingança, era uma questão de princípio. Valentine mentira-me, e isso eu não podia perdoar-lhe.
     E agora o dia está prestes a nascer. Sei o que vai acontecer. Posso visualiza-lo com toda a lucidez do meu desencanto. À primeira claridade da alvorada, Valentine vai despertar em pânico, sem perceber porque está ainda aqui, porque é que a sua inata noção de tempo nocturno não o avisou da hora. Vai debater-se para ir procurar refúgio na escuridão, mas eu não vou deixa-lo. Vou prende-lo nos meus braços e mante-lo comigo. A força da minha resolução será maior do que a dele. E quando a luz perlífera da manhã entrar pela janela e a neve dos picos começar a corar, a nossa pele começará a estalar e a crepitar e a fumegar. Ele gritará, mas eu acolherei a dor com um sorriso de alegria. O fulgor do sol em ascensão, glorioso, vitorioso, inflamará a carne dos nossos corpos, transformando-os em tochas flamejantes durante um breve momento de extática união e oblívio. Depois, só restará a silhueta das nossas formas abraçadas, delineadas e preenchidas por cinza, numa depressão no gelo criada pelo calor. Eventualmente, uma brisa entrará no quarto vazio e agitará as cinzas até que um vento mais forte as levante num redemoinho e as leve, inextricavelmente misturadas, para viajar pelos amplos espaços aéreos.
     Juntos, para sempre.