quarta-feira, 23 de abril de 2014

Compendium de fadas, duendes, elfos e goblins

Imaginem um mundo onde todas as criaturas que conhecemos dos contos de fadas e do folclore existem realmente em precária convivência com os seres humanos. É esta a premissa da trilogia Bitterbynde (The Ill-Made Mute, The Lady of the Sorrows e The Battle of Evernight) de Cecilia Dart-Thornton.
     No mundo de Erith, assolado por caprichosas vagas de magia que percorrem a terra como um vento colorido e tilintante, os seres humanos tem que partilhar o seu espaço com criaturas bem mais antigas e alienígenas. Há a Seelie Court composta por toda a espécie de faeries brincalhões, mais ou menos inofensivos, indispensáveis ajudantes domésticos ou constantemente a pregar partidas enfurecedoras; e há a Unseelie Court, os seres realmente malignos e assustadores que levam os humanos à loucura e à morte.
    Numa sociedade agrário-medieval a existência de um metal, o sildron, que possui propriedades mágicas de levitação, constitui a única forma de tecnologia avançada; permite aos navios voar, impulsiona os elevadores das torres altíssimas onde residem os aristocráticos Stormriders, uma élite de cavaleiros e os seus cavalos alados.
    É numa destas torres que vive e trabalha o mais baixo dos servos, uma criatura desfigurada, muda e sem memória, que foi recolhida na estrada. Desprezado pelos outros serviçais, é através da sua progressiva aprendizagem dos costumes que ficamos a conhecer a vida na torre, os perigos que aguardam na floresta que os rodeia e as intrigas palacianas no seio dos Stormriders. A curiosidade impele o misterioso servo mudo e desfigurado a fugir a bordo de um Windship, um navio voador, dando origem à demanda da sua identidade e das memórias do seu passado. A sua busca é recheada de perigo e aventura, perseguições, fugas e encontros com personagens curiosas, misteriosas, fascinantes. De descoberta em descoberta vai recuperando um rosto, uma voz e um passado até reconstruir toda uma trama centrada sobre si.
     Cecilia Dart-Thornton constrói uma narrativa densa, rebuscada e mirabolante, cheia de twists que deixam o leitor em suspenso. Profundamente inspirada pelo folclore de origem celta e germânica, a autora recria todo um universo familiar, de Grimm a Perrault, mas mais luxuriante, gótico, épico e romântico, com uma atenção à minúcia dos detalhes apenas encontrado nas pinturas pré-rafaelitas. Além disso, o seu estilo, uma golden writing lirica, ricamente descritiva, em que as personagens falam numa linguagem arcaica e Shakespeareana, cria na mente do leitor imagens de poderosa beleza e encantamento. Ler estes livros é como assistir a  uma encenação particularmente operática e barroca de "Sonho de uma Noite de Verão".
     Não é leitura para quem não aprecia um estilo que pode parecer antiquado mas que é perfeitamente adequado ao tema e cria a sensação de realidade histórica, como se fosse uma obra escrita noutro século.
     Infelizmente, não existe qualquer tradução em português. Ainda estou à espera que alguma editora em Portugal se atreva a apostar nesta escritora.




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