segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Odisseia no Espaço

As pessoas da minha geração (na casa dos 30/40) certamente lembram-se de uma série de animação dos anos 80 destinada a um público juvenil que gostava de ficção científica. Estou a falar de Ulysses 31.

 
A série de 26 episódios tinha como premissa a adaptação da odisseia de Homero num cenário futurista. A acção decorre no século XXXI. Na estação de Troy, Ulysses prepara-se para voltar ao planeta Terra mas um incidente com um Ciclope, provoca a ira dos Deuses (interprete-se como entidades extraterrestres tecnologicamente superiores). A tripulação da nave Odyssey é colocada num estado de animação suspensa e Ulisses é condenado a vaguear pelo espaço desconhecido do Olimpo até encontrar o caminho para casa, entretanto apagado do computador central da nave. Tem como única companhia o seu filho Telemaco e uma criança extraterrestre que ele salvou de um sacrifício ao Ciclope.


Inicia-se então uma série de aventuras que procura reproduzir as etapas da viagem de Ulisses no mar Egeu no espaço sideral povoado de mundos e criaturas que, ou ajudam Ulisses na sua demanda, ou procuram elimina-lo ao serviço dos Deuses. Para além das famosas passagens (encontro com as sereias, a Circe, Calipso, etc) alguns episódios também adaptam outras histórias do universo da mitologia grega, e personagens como Orfeu ou Sisifo ficam ligados ao destino de Ulisses.


Ulysses 31 tem todas as limitações de uma série de animação dos anos 80 mas ainda se vê muito bem. Os argumentos estão bem escritos, a animação e desenho de personagens tem a qualidade da mestria japonesa, o design de cenários e naves procura recriar um certo estilo clássico que evoca uma cultura helénica futurista e contém referências aos filmes de FC da época (quem não se lembra da pistola de Ulisses que se convertia numa espada laser, à semelhança dos sabres de luz de Star Wars?). A banda sonora electrónica, por vezes evocativa, outras vezes mais pop, merece especial referência porque se destacava do género de música habitualmente associado a séries de animação.
    De um modo geral é uma daquelas séries que recordamos com afeição e cuja revisão, décadas passadas, não desaponta, como acontece frequentemente com produtos de menor qualidade artística.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os Filmes do meu Deslumbramento 1

Não tenho pretensões a fazer crítica de cinema; a minha intenção é apenas partilhar o meu gosto pelo cinema, particularmente pelos filmes de FC, Fantasia e Fantástico (de outro modo a lista seria infindável). Não seguirei nenhuma ordem ou temática em particular, antes deixando-me conduzir conforme as divagações da memória. Cresci a ver velhas películas a preto e branco da era dourada de Hollywood, hoje consideradas clássicos, e continuo aprecia-las. Nessa altura, anos 70/80, a televisão era o meu videoclube. A RTP de então, sobretudo o canal 2, prestava um bom serviço na formação de cinéfilos. Divulgava não só o clássico cinema americano mas também dedicava ciclos semanais a cineastas que desde então marcaram as minhas preferências. Eu via tudo, absorvia tudo, aprendi a ver cinema. Assimilei termos e conceitos antes desconhecidos, aprendi a distinguir realismo italiano do expressionismo alemão da nouvelle vague francesa, comparava estilos e correntes e assim desenvolvi um sentido crítico que me permitia reconhecer, quase intuitivamente, um bom filme de um mau. Com o passar do tempo tornei-me mais selectiva e o meu fascínio inicial transformou-se numa curiosidade ávida. O meu interesse estendia-se a toda a plêiade de artistas e artesãos que faziam do cinema a mais absoluta das expressões artísticas, onde se reuniam todas as outras formas de arte numa união harmoniosa e irrepreensível.
     Esse sentimento do maravilhoso ainda me acompanha quando revejo os filmes que despertaram em mim o gosto pelo cinema como arte. Um dos primeiros filmes que me lembro de ver em criança e que deixou em mim uma profunda impressão foi "La Belle et la Bete" de Jean Cocteau (1946).

  
É uma adaptação fiel do conto de Perrault, A Bela e o Monstro, e foi a primeira vez que vi condensada em imagens em movimento as ilustrações dos livros de contos de fadas que tanto tinham estimulado a minha imaginação. Os toques surrealistas do cenário, o deslizar onírico da câmara, a fotografia suave e luminosa, num preto e branco deslumbrante, tão cheio de brilho e sombras que a cor se torna irrelevante, tudo isto criou em mim um poderoso efeito hipnótico.

  
Eu creio que a resposta a qualquer forma de arte deve ser sempre, em primeiro lugar, uma resposta emocional. Não há explicação ou teoria racional que nos faça gostar de uma obra artística se não houver aquela primeira reacção visceral, inexplicável, que afecta os nossos sentidos e a nossa percepção. A beleza, quaisquer que sejam os padrões subjectivos, deve emocionar, deve elevar e transportar a nossa imaginação, e foi o que este filme fez comigo. 
    A influência de "La Belle et la Bete" ainda é patente em muitos dos filmes feitos actualmente, provando a intemporabilidade do seu conceito. O melhor exemplo que vi até hoje é o "Legend", de Ridley Scott (1986). Considero-o o seu herdeiro espiritual.   





 Tal como Cocteau, Scott recria o universo dos contos de fadas, com um argumento original mas que vai buscar material ás fontes tradicionais. Assim, temos uma princesa, Lily, algo mimada, que ao desobedecer à regra de nunca tocar num unicórnio, provoca um distúrbio no equilíbrio do mundo e atraí a atenção do Senhor das Trevas, convenientemente chamado Darkness. Enquanto Lily se debate entre a tentação pelas trevas e o desejo de corrigir o seu erro, um bando de criaturas saídas directamente do folclore celta e medieval tenta restaurar o equilíbrio e salvar a princesa. Nada de novo, portanto. Mas onde o filme se destaca de todos os outros do mesmo género é precisamente no aspecto visual e aí Scott é um mestre.

 
Quer seja no esplendor dos cenários barrocos, na caracterização gótica das personagens dos "fairies", especialmente de Darkness (nunca uma figura demoníaca foi mais impressionante), quer seja na banda sonora de Jerry Goldsmith, num dos seus melhores trabalhos, quer seja na fotografia que capta na perfeição a luminosidade das mais belas ilustrações, "Legend" é um delicioso repositório de referências artísticas e literárias e um tributo original, sem nunca tentar plagiar, a "La Belle et la Bete". É um festim para os sentidos, por vezes operático, impregnado de uma estética algo antiquada mas perfeitamente adequada ao tema, rico em pormenor (a remeter para os trabalhos de minúcia dos artistas pré-rafaelitas) que tornam todo este mundo (uma floresta inteira recriada em estúdio, mas não parece) credível. É, essencialmente, tal como "La Belle et la Bete", um filme muito belo, destinado a estimular o imaginário de cada um.